A Sombra do Vento

A Sombra do VentoJá disse, aqui no blog, que todo escritor é um criador de mundos e que toda história merece ser lida. Cada história é um mundo que visitamos, um lugar pra onde viajamos.

Alguns desses mundos viram apenas fotos em um álbum; alguns desses mundos nos mantém felizes e, enquanto estamos neles não queremos sair; e, outros mundos tocam nossa alma e acendem alguma coisa em nosso coração que nos faz carregar aquele pedacinho de mundo pra sempre dentro de nós mesmos.

A Sombra do Vento de Carlos Ruiz Zafón faz parte do último tipo de mundo. É um mundo em que a gente mergulha e não que voltar à tona.

Tenho o prazer de ter lido muitas histórias nessa minha vida, mas, foram poucas as que realmente tocaram minha alma a ponto de eu poder dizer que vão fazer parte de mim por muito tempo.A Sombra do Ventro Página 21

A Sombra do Vento é uma história que vai te conquistando devagar. Não é aquele assombro desde o primeiro parágrafo, como acontece com alguns livros. O texto é sim encantador desde o começo mas é pelo seu ritmo. O modo como as palavras se sucedem no papel tem uma cadência deliciosa e a leitura vira um prazer porque é claro como o dia que quem escreveu sabia o que estava fazendo, e o fez muito bem. Neste ponto quero falar sobre a importância da tradução. É claro que Zafón é um escritor primoroso que criou uma história muito boa mas, neste caso, também foi primoroso o trabalho de tradução de Marcia Ribas porque foi o texto dela que li e não o original do escritor espanhol.

A História

A Sombra do Ventro Página 47A Sombra do Vento conta a história de Daniel Sempere e sua busca por Julian Carax, o fictício autor de um livro chamado A Sombra do Vento.

Daniel perdeu sua mãe durante a guerra civil na Barcelona de 1945. Uma noite, Daniel acordou gritando porque se dera conta de que não lembrava do rosto de sua mãe. O pai, a fim de consola-lo ou distraí-lo lhe contou sobre o Cemitério dos Livros Esquecidos onde o menino encontrou o livro de Carax.

Daniel ficou tão apaixonado pela história que procurou outros títulos do autor. Não conseguiu ler outros títulos mas encontrou alguns mistérios e, durante sua busca pelo homem tão misterioso capaz de criar tão apaixonante história, Daniel conheceu o primeiro amor ainda criança e ele veio na forma de uma mulher mais velha e completamente cega.

O menino Daniel se transformou em homem durante a busca e seu viu preso em uma teia de mistérios que envolve perseguições, sequestros e assassinatos e, a história que começou como um tocante caso de criança triste por causa da perda da mãe vira um suspense fantástico como ramificações imprevisíveis.

Uma frustraçãoA Sombra do Ventro Página 212

Quando eu terminei de ler A Sombra do Vento me peguei pensando no que tinha lido na orelha da capa e na contracapa do livro procurando por pistas que me contassem logo de cara o quanto o livro que eu tinha acabado de ler era fantástico. Não não encontrei nenhuma e me perguntei: como é que conseguiram esconder todo o brilho da história? Nenhuma pessoa que leia aquela orelha imagina a grande história que se descortina nas páginas.

Mas o fato é que, enquanto pensava na resenha, eu tive que me conformar com isso porque não há maneira de tentar transmitir o tamanho do fascínio que a história de Zafón causa sem contar demais sobre a história, sem encher o leitor de spoilers que podem ser indesejáveis, sem revelar partes importantes de trama e que são fundamentais para manter o leitor preso às páginas do livro. Enfim, seja quem for que escreveu a orelha, fez um bom trabalho.

Por isso, aqui na minha imobilidade, tudo o que posso dizer pra defender a história de Zafón é: LEIAM. Sim, em caixa alta.

 

Considerações Pessoais

A Sombra do Ventro Página 259A Sombra do Vento foi revelador pra mim com relação ao universo masculino. Nós mulheres gostamos de grandes gestos. Seja no amor ou na amizade. Precisamos das lágrimas, dos abraços, dos “eu te amo”.  Cultivamos nossas amizades com palavras e ligações telefônicas e elogios. 

Zafón me mostrou um pouco desse mundo macho onde as coisas acontecem naturalmente, uma em consequência da outra, sem grandes demonstrações externas. As emoções borbulham por dentro de Daniel mas suas ações na maior parte do tempo são contidas mesmo que cheias de amor.

O amor aliás é um elemento muito presente na história e, perde apenas para a loucura. De fato, eu nunca vi tantos personagens malucos em uma trama. Há todo tipo de psicopatia nessa história. Sério.

Além disso, o autor teve o capricho de apresentar cada personagem da trama como se ele fosse o mais importante da história. Cada personagem é apresentado e tem nome, sobrenome, e personalidade. Outra coisa fantástica no livro é que não há um único evento iniciado que não tenha tido seu final na história. E, como cada evento criado acaba virando um mistério, aconteceu de o livro ter muitos finais o que foi ao mesmo tempo delicioso e torturante.

Enfim, esta resenha está ficando enorme por isso só vou deixar dois avisos:

Primeiro: Leiam o livro, é realmente muito bom.

Segundo: Se você estiver começando a penetrar o bom mundo da leitura ou se tiver um vocabulário limitado é altamente recomendável que o faça com um dicionário por perto.

A boa notícia é que faremos um especial Dicionário Voraz com as palavras mais deliciosas de A Sombra do Vento.

Volta pra ler Smiley piscando