segunda-feira, 10 de junho de 2019

(Resenha) A Balada da Bandoleira: High Noon


Se eu tivesse que resumir este livro em uma frase, seria uma pergunta: “onde está seu deus agora?”. O que era uma mistura improvável se provou a melhor ideia do ano. "A Balada da Bandoleira" é um épico que consegue misturar o melhor de duas grandes escritoras e promete bagunçar muito mais do que sua cabeça.

Resumo da história:

Depois de um duelo de vida e morte, Marysol (a Bandoleira) é atirada em um outro mundo através de um portal aberto com magia de sangue e vai parar entre os humanos; Ruan (o Maldito), seu combatente, também usou um portal para o mundo humano, mas foi um mundo diferente daquele em que Marysol havia sido atirada. Ela, confusa e sem memória, somente consegue se lembrar de que estava perseguindo alguém e que precisava encontrar esse alguém e matá-lo. Ele sabia muito bem o que queria, e também sabia que a Bandoleira estava em um mundo diferente. A única coisa que ele não sabia é que havia se transportado para um mundo de humanos. Nenhum dos dois acreditava que humanos existissem. Pensavam que os humanos eram lendas, histórias da carrochinha que serviam apenas para assustar as crianças de seu mundo.
Quando a Bandoleira percebe que está em um mundo diferente do mundo do Maldito, ela começa a perseguir um portal para encontrá-lo. Consegue abrir um e, depois disso, a perseguição começa. Não apenas ela persegue Ruan, mas ambos procuram encontrar seus dublês no mundo humano, suas versões em uma outra linha de tempo, porque esses dublês aumentariam suas forças e lhes dariam uma vantagem na hora do duelo.


Primeiras impressões

Eu comecei a ler este livro cheia de expectativas. Já li quase tudo da Fernanda W. Borges, e sou fã incondicional da B. Pellizzer, então preparei meu chá de funcho, cruzei as pernas, ajeitei minha almofada no sofá, respirei fundo e comecei. Quando terminei de ler o prólogo fiquei tipo: “o que está acontecendo?”

Não vi nenhuma das duas no prólogo. Foi um prólogo suave, quase, quase um primeiro capítulo de livro de autoajuda. Manja? Ame a si mesma e toda aquela coisa... Aí eu fiquei tipo: onde estão os sequestradores malucos e os traficantes de órgãos humanos da Fernanda? Cadê a falta de fé da B. Pellizzer? Quero odiar sem sentir culpa, não aprender a amar a mim mesma!

Mas então eu fui para o primeiro capítulo e vi aquela mulher ao lado daquela estrada de ferro, eu quase podia sentir o sol queimar a pele dela, e ali, eu já comecei a enxergar as minhas escritoras. Enxerguei a B. Pellizzer no calor do sol na minha própria pele, enxerguei a Fernanda no capricho de explicar que tipo de roupa a moça desmemoriada vestia, e voltei a relaxar.

Aviso aos leitores: não pulem o prólogo. É no final do livro que a gente entende a genialidade daquele prólogo, porque ele não é um retrato de quem escreve, é de quem narra, e o narrador é uma personagem. Isso não é spoiler. Vai ficar muito claro, já no primeiro capítulo, que o narrador é uma das personagens do livro, e eu prometo, você vai ficar de queixo caído quando descobrir quem é.

Os personagens

Eu gosto de vilões, me processem, e fiquei quase metade do livro apaixonada por Ruan, o Maldito, até que seu dublê no mundo humano apareceu. Se eu pudesse juntar os dois e fazer um só pra mim, eu juntaria. Ruan é um personagem delicioso e engoliu a protagonista, como sói acontecer com os melhores vilões.

Gostaram da palavra "sói"? Aprendi lendo o livro. Vantagens do dicionário do Kindle. Se você também não conhece essa palavrinha maravilhosa, clique aqui; se quer saber como conjugá-la, clique aqui

Voltando ao Ruan, o (delicioso) Maldito, ele é cínico, canalha, e cheio de sarcasmo; seu dublê humano, Rogério, é um médico que, sozinho, já havia descoberto a possibilidade de viajar entre os mundos e tinha passado alguns anos de sua vida procurando por um portal. A cena em que Ruan e Rogério se encontram pela primeira vez é uma das passagens marcantes do livro. Memorável.

Não vou falar de todos os personagens, claro que não, só dos seis protagonistas, para vocês saberem o que os espera.

Marysol, a Bandoleira, renegou a própria magia em seu mundo porque achava muito fácil resolver as coisas com mágica. Ela preferia suas pistolas e seus punhos e, acreditem, a moça sabe brigar. A única coisa mágica que carrega consigo, é um violão antigo que ela nem sabe por que foi que roubou.

Solymar, a dublê de Marysol, é uma barwoman que precisou largar a faculdade depois que seus pais morreram. Ela é tímida e cheia de medo, quase o oposto de sua dublê.

Ruan, o Maldito é um mago poderoso. Ao contrário da Bandoleira, ele sempre valorizou a magia e passou a vida tentando se tornar um mago melhor, seu objetivo é dominar a morte, tornar-se imortal.

Rogério, o Bendito, o dublê do Maldito, é um médico de QI altíssimo que se acidentou em uma corrida de cavalos e ficou paraplégico. É o personagem mais consistente da trama. Um ser humano cheio de desencontros e que carrega uma ânsia de dominação muito parecida com a de seu dublê.

Tico (Thiago) é um menino de rua, e é ele quem torna possível que Marysol encontre Ruan. Ele estava presente em um dos momentos em que Ruan praticou suas maldades no mundo humano, e também estava presente quando Marysol atravessou o portal e caiu no nosso mundo. Uma cena maravilhosa! Vocês precisam ler. 

Danielle é uma delegada, e é dublê da irmã de Marysol, é também "amiga" de Tico. É na casa de Danielle que Marysol estabelece seu quartel-general.

O que o livro tem de delicioso

Os diálogos. Em tudo o que eles têm direito. Quem tá acostumado a ler B. Pellizzer sabe da capacidade que ela tem de dar uma voz para cada personagem. A gente nunca precisa ler o “disse fulano” no final da fala, porque seus personagens têm identidade, coisa difícil de se ver. Num livro com tantos personagens, pensar-se-ia que isso não aconteceria. Ah! Mas aconteceu. E não só eles têm identidade, eles têm sotaque. É uma viagem doida demais!

O que o livro tem de extraordinário

O impossível é um conceito inexistente. Quando você pensa que já viu de tudo, você lê uma cena inimaginável. E isso é já no começo. O inimaginável mais marcante vem quando o Maldito realiza sua primeira magia no mundo humano. Ah o dedo de digitar um spoiler bem grande chega a tremer. Que cena! Que cena!

O que o livro tem que é exatamente igual a qualquer história

O clichezão do livro fica por conta do já batido e rebatido conceito "não gosto dos humanos, mas depois que passei a conviver com eles, passei a entender e até a amar". Agora tenho sentimentos e toda aquela coisa.
Não sou contra clichês, de jeito nenhum, eles existem porque funcionam, e funcionou nesta história também.

B. Pellizzer e Fernanda W. Borges

O final

Semana passada, a Soninha escreveu um artigo que concluiu dizendo que estava torcendo para a Fernanda ter escrito o final de "A Balada da Bandoleira". Eu fiquei dividida por um tempo, (já falei que sou fã da bandoleira de sobrenome Pellizzer, não falei?), mas confesso que, depois de ler A Balada... precisei concordar com ela. 
Obrigada, Fernanda W. Borges, por ser uma alma boa. Eu já te admirava; agora, eu te venero.

Explico: 
A B. não tem qualquer apreço pelo emocional do leitor em seus finais. Aquele momento em que o seu coração dá um salto e você abre a boca meio que se perguntando "e agora?", é bem nessa hora que ela termina o livro. 
O momento "e agora?" de "A Balada da Bandoleira" aparece quando a personagem que narra revela sua identidade. É aquele momento em que você fica bem assim: 


Imediatamente eu olhei para o pé da tela do leitor digital e respirei aliviada: ainda tinha livro pra ler, porque, se o livro tivesse terminado ali, eu teria dado um ataque. Sério. 
Com o coração cheio de alegria, eu virei a página. 
Tinha uma figura.
Uma figura...
Uma fi-gu-ra, imagem, vetor, uma extensão da tortura.

Vocês não entendem a agonia disso, e eu não ligo se isso for considerado spoiler, porque eu preciso que vocês saibam: não há necessidade de sofrer. Tem mais livro na frente. 
Aquele provavelmente foi o final da B. Pellizzer, mas a linda da Fernanda W. Borges nos protegeu deste mal. Amém! 

Claro que eu estou conjecturando. Eu não tenho a menor ideia de quem escreveu o quê (apesar de ter tentado adivinhar), o texto está uniforme, irretocável, e o melhor, inclusive no final, quem lê pode ter um pedaço delicioso de cada uma das duas. 

A Balada da Bandoleira: High Noon está disponível na Amazon e fazendo o maior sucesso. Chegou às primeiras posições já no dia do lançamento, sucesso mais do que merecido.

Quem curte uma fantasia moderna com uma pitadinha de velho oeste não pode perder. 

*** 


E-book gentilmente cedido pela Editora Raredes. ;)



2 comentários:

  1. Deixem seus comentários! Eles fazem nossos resenhistas muito felizes!

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  2. Olha... vocês fazem cair ciscos nos olhos sensíveis desta autora. Agradeço pelo esmero na resenha, por distinguir tão bem os estilos das duas autoras sequeladas, enfim... fiquei muito feliz, mesmo!

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