Paulo Coelho não come cérebros

Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei: Resenha

Ler Paulo Coelho não é nada do que eu esperava.

Paulo Coelho

Quer dizer… eu não sei bem o que eu esperava mas, certamente, não o que li. A gente vive tão acostumado a escutar que Paulo Coelho não é um escritor de verdade, e que é uma degradação para o Brasil que alguém assim faça sucesso no exterior; etc. etc. etc, que depois de um tempo dá um medinho de ler.

Há muito tempo tá na moda odiar Paulo Coelho e, apesar de nunca ter feito parte da turma de haters, eu, tampouco, fiz algum esforço pra ler um de seus livros. Acho que, de algum modo, eu temia que, ao abrir um de seus livros eu fosse sugada por um vórtice  e escoada em algum universo paralelo em que meu cérebro ficasse com apenas trinta por cento de seu tamanho normal.

Então, quando me propus a realizar o experimento Paulo Coelho, escolhi dentre os títulos da minha biblioteca, aquele que me pareceu mais poético. O eleito foi Na Margem Do Rio Piedra Eu Sentei E Chorei. Então peguei o livro, sentei e li o primeiro parágrafo:

“Na margem do Rio Piedra eu sentei e chorei. Conta a lenda que tudo que cai nas águas deste rio – as folhas, os insetos, as penas das aves – se transforma nas pedras do seu leito. Ah, quem dera eu pudesse arrancar o coração do meu peito e atirá-lo na correnteza, e então não haveria mais dor, nem saudade, nem lembranças.”

Meu primeiro pensamento foi: “Isso não é ruim!” Então relaxei e li o resto do livro.

O Livro (Aviso: contém spoilers)

Na Margem Do Rio Piedra Eu Sentei E ChoreiNa Margem Do Rio Piedra Eu Sentei E Chorei conta a história de Pilar. Pilar é uma moça simples que viveu seu grande amor ainda na infância. Um dia seu grande amor decidiu que precisava ver mais do mundo e partiu atrás de um futuro melhor deixando pra trás uma Pilar amargurada e cínica.

Com o tempo, Pilar resolveu se conformar com sua vida na cidade em que estava. Sua intenção era prestar concurso público, um dia encontrar um homem decente e se casar e construir uma família. Sem grandes emoções, sem grandes surpresas. Até que seu grande amor pediu para vê-la.

O rapaz, cujo nome nunca foi mencionado na história, havia se tornado um seminarista mas, na verdade, nunca tinha esquecido o quanto era apaixonado por Pilar e precisava de um tempo para decidir qual vida queria seguir: se a vida religiosa, ou a vida de homem casado, com uma família.

A história leva a um passeio interessante na religiosidade católica, com uma pegada na ramificação carismática da igreja – aquela mais focada nos dons do Espírito Santo. O próprio seminarista tem o dom da cura e opera muitos milagres no decorrer da história. Há também um padre que lê pensamentos e uma teoria bastante interessante sobre a face feminina de Deus que, pra falar a verdade, eu queria ter lido mais a respeito na história.

Enquanto mergulhava no mundo religioso e cheio de milagres do seminarista, Pilar percebeu o quanto o mundo era grande. Muito maior do que ela enxergava de dentro de sua vida e o quanto seu amor havia conquistado e queria fazer parte daquilo, daquela grandeza. Ao mesmo tempo, o seminarista decidiu que queria ficar com Pilar, abriu mão de seus dons, e resolveu que iria voltar pra sua cidade natal e enquanto Pilar retomava seu antigo emprego ele ia tentar tocar uma vida pacata e normal.

Seria muito desaforo aqui eu contar o final da história, por isso, não vou fazê-lo mas, pra mim, foi interessante porque deixou para o leitor a missão de interpretar aquele final com base no caráter da personagem Pilar. Me fez pensar.

Conclusão

Paulo Coelho não morde. Quem já lê, continue lendo. Quem nunca leu, não vai te fazer mal tentar.

Vai mudar sua vida? Não. Mas pode expandir sua mente pra novos horizontes com menos véus de preconceito.

Eu, agora, já vou começar a olhar como alternativa, a estante onde estão os livros de Paulo Coelho. Me bateu até uma certa curiosidade sobre O Alquimista, que foi quem elevou Paulo Coelho a categoria de “Pop-Star-Literário-Que-Todos-Amam-Odiar” mas, como não tenho O Alquimista à mão eu vou ou de A Bruxa de Portobello (tem um mamilo na capa ahahahahahahaha) ou de O Demônio e a Srta. Prym (o título me parece bem promissor).

Que, no futuro, possamos odiar menos e ler mais.

 

+ Paulo Coelho: Minha última grande fronteira